Qualquer ato eleitoral permite várias leituras. Dos resultados de ontem destacam-se quatro perspetivas e meia dúzia de protagonistas. E a circunstância de o PSD ter reforçado a sua votação ficando mesmo à beira da maioria absoluta como previa a sondagem da Intercampus para o JM e a JM FM.
A pesquisa feita ontem, à boca das urnas, pela Universidade Católica para a RTP apontava no mesmo sentido e a noite eleitoral ganhou ainda mais interesse. Os resultados acabaram por confirmar a vitória larga dos social-democratas, a subida do JPP e o trambolhão do PS.
A vitória do PSD e de Albuquerque
Miguel Albuquerque chega ao fim destas eleições com uma imagem bem mais fortalecida do que quando se anunciou candidato. O líder do PSD iniciou um discurso coerente sobre as desvantagens da queda do Governo e manteve essa linha até sexta-feira à noite. Apontou o que de bom foi executado pelas suas equipas nos últimos dez anos e explicou o que estava em causa nestas eleições.
A mensagem passou claramente. O PSD sai reforçado em número de votos, tem mais quatro deputados e consegue a proeza de vencer em 10 dos 11 concelhos e em 51 das 54 freguesias da Madeira.
O resultado alcançado pelos social-democratas confirma a estratégia do líder e fragiliza as oposições.
Mas Miguel Albuquerque também ganhou de portas para dentro. Depois de ter evitado novo congresso, o presidente do PSD conseguiu silenciar a oposição interna. Tanto que nos últimos dias de campanha contou com dois ‘reforços’ no apelo ao voto feito por Alberto João Jardim e por Manuel António Correia.
O salto do JPP e dos irmãos Sousa
O que era um pequeno movimento nascido em Gaula transformou-se na segunda maior força política regional. O agora partido Juntos Pelo Povo encontrou e ampliou um espaço de protesto e denúncia e ultrapassou os socialistas.
Os irmãos Élvio e Filipe Sousa também conseguiram travar – ou pelo menos protelar – a contestação interna e fizeram valer a força da união contra o adversário principal, o PSD. A estratégia correu bem. Tão bem que permitiu ter mais votos e ganhar mais dois lugares no Parlamento. Só não correu melhor porque o PS não fez a sua parte e a esquerda fica bastante fragilizada na Assembleia.
A derrota do PS e de Paulo Cafôfo
Os socialistas madeirenses estão habituados a perder, mas não por tanto. Desta vez, o PS não só teve menos votos e menos deputados, como ainda deixou de ser o maior partido da oposição.
Paulo Cafôfo assumiu a derrota e chamou a si toda a responsabilidade por um desaire que se anunciava a partir das últimas eleições. O líder do PS não conseguiu capitalizar e, sobretudo, não foi capaz de abrir o partido, com exceção para Gonçalo Velho, que surgiu com os Estados Gerais.
Durante toda a campanha, Cafôfo fez-se rodear pelos seus mais fiéis, que não são necessariamente os mais influentes. E o resultado está à vista.
O pequeno poder de Rodrigues
O líder do CDS também não sai bem na fotografia eleitoral. José Manuel Rodrigues fez uma campanha com muitas ideias e em todas tentou passar longe do tempo em que o seu partido fez parte do Governo. Tentou fazer valer a sua posição de presidente da Assembleia para dizer que tanto poderia viabilizar uma governação de direita ou de esquerda.
Essa disponibilidade valeu algumas críticas e afastou eleitores. De qualquer forma, mesmo reduzido a um deputado, o CDS ainda preserva algum do seu poder e pode representar um mandato de quatro anos tranquilos se conseguir um acordo capaz de garantir a maioria absoluta que escapou por pouco ao PSD.
A humilhação dos pequenos partidos
Com exceção da Iniciativa Liberal, que também perde votos, mas consegue manter o deputado, os partidos com menor expressão foram ontem desconsiderados. O PAN disse adeus ao Parlamento e o PCP e o Bloco não conseguiram votos suficientes para regressar.
Muito pior estão todos os outros, que foram mesmo humilhados. Livre, PTP, MPT, RIR, ADN, PPM e ND, todos juntos, tiveram pouco mais do que três mil votos. Menos do que os votos nulos brancos.
E agora? Recuperar o tempo perdido
Por tudo o que foi dito, fica claro que os madeirenses perceberam a mensagem de Miguel Albuquerque e do PSD-Madeira. Os eleitores acolheram a ideia de estabilidade tantas vezes defendida pelo partido vencedor e fizeram a vontade. É verdade que o PSD não tem maioria absoluta, mas tem mais força e redobrada legitimidade para garantir segurança e confiança na ação governativa.
Dito de outra forma, os madeirenses fizeram o que o PSD pediu. Deram a vitória aos social-democratas, valorizaram o trabalho do JPP e castigaram o PS, o Chega e o CDS.
Agora, cabe ao PSD fazer a sua parte. Cabe a Miguel Albuquerque fazer uso dos instrumentos que esta maioria lhe permite e criar condições para uma governação tranquila durante quatro anos. É claramente isso que a maioria dos eleitores quer e que a sociedade espera.
Agora, é preciso fazer tudo para recuperar o tempo perdido com a instabilidade dos últimos meses.
Agora, é necessário formar um Governo capaz de encontrar pontos de entendimento no Parlamento para a legislatura.
Agora, é fundamental encontrar forma de se acabarem as desculpas para os atrasos da governação.